Um atraso da base governista na Câmara de Cuiabá abriu espaço para que a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Assédio Sexual, proposta pela vereadora Maria Avallone (PSDB), volte ao centro das discussões do Legislativo. A comissão tem como objetivo investigar as denúncias de assédio sexual envolvendo o ex-chefe de gabinete do prefeito Abilio Brunini (PL), William Leite de Campos.
A movimentação ocorreu logo após o encerramento da CPI que investigava a aplicação de recursos da Secretaria Municipal de Educação referentes aos anos de 2023 e 2024. Às 16h58 de quarta-feira (8), Maria Avallone protocolou o pedido de desarquivamento da CPI do Assédio Sexual. Horas depois, às 20h, o vice-líder do prefeito, vereador Demilson Nogueira (PP), apresentou uma nova proposta de CPI para apurar supostas irregularidades na compra de materiais didáticos, livros e insumos pedagógicos pela atual gestão da Secretaria Municipal de Educação. Segundo o documento, o requerimento só alcançou a nona assinatura necessária após as 21h.
Durante a sessão desta quinta-feira (9), a primeira-secretária da Câmara, vereadora Maysa Leão (Republicanos), comunicou a leitura do pedido de desarquivamento da CPI do Assédio Sexual. Em seguida, a presidente da Casa, vereadora Paula Calil (PL), informou que a CPI da Educação foi oficialmente encerrada sem solicitação de prorrogação, abrindo uma vaga para a instalação de uma nova comissão de investigação.
Apesar disso, Paula Calil afirmou que a definição sobre o desarquivamento da CPI será debatida na próxima segunda-feira (13), durante reunião do Colégio de Líderes. Somente após essa discussão o caso será encaminhado à Procuradoria Jurídica da Câmara, que emitirá parecer sobre a viabilidade da instalação da comissão.
A situação lembra um episódio anterior envolvendo pedidos de CPI para investigar a aquisição de livros didáticos durante a atual gestão. Na ocasião, requerimentos apresentados por Demilson Nogueira e Maysa Leão foram inicialmente arquivados pelo setor jurídico da Câmara, mas posteriormente acabaram sendo desarquivados, criando um precedente que agora pode favorecer a proposta de Maria Avallone.
O caso ganhou repercussão em fevereiro deste ano, quando uma ex-servidora da Secretaria Municipal de Trabalho registrou boletim de ocorrência acusando William Leite de Campos de assédio sexual. Segundo o relato, ela foi convidada para integrar a administração municipal e passou a trabalhar diretamente subordinada ao então secretário.
Conforme o boletim de ocorrência, o comportamento do superior teria se tornado inadequado desde os primeiros dias de trabalho, com insistência em conversas, contatos físicos frequentes e convites para permanecerem sozinhos. A servidora também afirma que era orientada a impedir a entrada de outras pessoas em sua sala e evitar contato com colegas, situação que, segundo ela, contribuiu para seu isolamento no ambiente de trabalho.
O documento ainda relata um episódio em que, após pedir ajuda para realizar uma transferência bancária, o então secretário teria enviado um valor superior ao combinado, orientando-a a utilizar o excedente para despesas determinadas por ele. A transferência teria sido feita a partir da conta de uma empresa de comunicação e publicidade.
A ex-servidora também narra que foi repreendida de forma agressiva após o suposto desaparecimento de um pen drive, posteriormente encontrado na residência de William Leite. Segundo o boletim, colegas ainda faziam comentários de que as servidoras nomeadas só ocupavam os cargos por serem “bonitas”, situação que ela afirma ter causado constrangimento.
Ainda conforme o registro policial, a vítima procurou o secretário de Governo, Ananias Filho, que teria autorizado sua transferência para outro setor. Antes que a mudança fosse efetivada, porém, ela afirma que William Leite tentou beijá-la à força. O episódio motivou seu pedido de exoneração. A denunciante afirma que só decidiu formalizar a denúncia meses depois ao tomar conhecimento de relatos semelhantes envolvendo outras mulheres.
Após a divulgação das acusações e do pedido de criação da CPI, William Leite pediu exoneração do cargo que ocupava na administração municipal. Até o momento, a denúncia ainda não foi objeto de investigação por comissão parlamentar na Câmara de Cuiabá.
