sábado, 13 de julho de 2024
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Polarização é pano de fundo de homicídio e agressão em Mato Grosso; entenda violência eleitoral

"A figura política que Lula e Bolsonaro representam são responsáveis por essa violência", diz professor Carlos Gadea

A polarização em torno da disputa entre o presidente da República e candidato à Jair Bolsonaro (PL) e o ex-presidente Lula (PT) vem sendo relacionada a diversos casos de violência pelo país. Ao passo em que foi se aproximação o primeiro turno da eleição, marcado para este domingo (2 de outubro), a situação acabou se agravando.

Homicídios, agressões foram notícia em diversas partes do Brasil. Em Mato Grosso, um apoiador de Lula foi assassinado por um bolsonarista. Agressor e vítima eram colegas de trabalho. Uma jornalista, que faz assessoria de imprensa para um candidato de esquerda, registrou um boletim de ocorrência alegando ter sido agredida por um empresário apoiador do atual presidente. Mas afinal, por que chegamos nessa situação? 

A CBN Cuiabáque integra o Programa Núcleos de Checagem Eleitoral, liderado pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), decidiu explicar esse cenário de polarização no país e os reflexos em Mato Grosso.

O professor da Escola de Humanidades da  Universidade do Vale do Rio dos Sinos, no Rio Grande Sul, Carlos Gadea atribui responsabilidades aos dois candidatos que lideram a corrida presidente pela violência em torno da eleição.

Segundo ele, Bolsonaro e Lula se alimentam desse processo, de forma populista, para conseguir chegar ao poder.

“A figura política que ambos representam são responsáveis por essa violência, porque eles se alimentam desse processo. Um sem o outro não seria nada. Ou seja, o Bolsonaro é o Bolsonaro pela figura do Lula. E, hoje em dia, o Lula é legitimado pela figura do Bolsonaro”, disse o professor, em entrevista à CBN Cuiabá.

“O princípio da política populista é a anulação do outro. Você constrói seu opositor como um ‘demônio’ para se construir como ‘bonzinho’. E os dois [Bolsonaro e Lula] fazem isso muito bem”, acrescentou.

Conforme o professor, tudo teve início lá nos anos 2000, quando vivemos um clico chamado de “Lula Petismo”.

Ele citou que Bolsonaro surgiu, em 2014, como uma reação e a esse ciclo. E, na análise do estudioso, uma reação violenta.

Gadea acredita que os casos de corrupção do governo do PT e a política pró-armas do Governo Bolsonaro acabam gerando esses tipos de violência.

Ela ainda mencionou que o fato de a população estar descrente com a política associado ao crescimento da violência no Brasil – por motivos diversos – são elementos que ajudam a tensionar esse cenário.

“A violência política, as ameaças, tendem a aflorar, irreversivelmente, quando você tem um conjunto de elementos propício a isso”, afirmou.

Para o professor, a polarização não deve acabar após a eleição, muito pelo contrário: “Acho que serão quatro anos muito duros, independente de quem ganhar a eleição. A polarização veio para ficar um bom tempo, dificilmente vai se desmanchar”, afirmou.

Apesar disso, ele acredita que o Brasil não corre risco de ser palco, por exemplo, de algo semelhante à invasão do Capitólio, nos Estados Unidos, caso um candidato “não aceite” o resultado das urnas.

“Se essa pergunta fosse feita há um mês atrás eu diria que sim [haveria possibilidade de conflitos mais intensos]. Mas agora vejo que não, tendo em vista o cenário que se construiu após o 7 de setembro. Estamos vivendo um cenário diferente em relação às urnas eletrônicas. Muitas instituições vieram à público se colocando a favor do processo eleitoral brasileiro. Portanto, não há como justificar uma coisa dessa, seria uma loucura”, finalizou.

Morte de lulista

Benedito Cardoso dos Santos, de 44 anos, foi assassinado por Rafael Silva de Oliveira, de 24, no dia 7 de setembro, na zona rural de Confresa (a 1.135 km de Cuiabá).

Rafael foi preso, denunciado pelo Ministério Público Estadual (MPE) e, recentemente, virou réu por homicídio triplamente qualificado, por motivo fútil, meio cruel e que dificultou a defesa da vítima.

Conforme a denúncia do Ministério Público, os dois estavam sozinhos em um sítio, onde trabalhavam juntos, quando começaram a falar sobre política. O acusado estava defendendo Bolsonaro, enquanto a vítima falava sobre o ex-presidente Lula. Após divergência de opinião os dois começaram a discutir.

Neste momento Rafael conseguiu pegar uma faca e, após perseguir a vítima na propriedade, a atingiu pelas costas.

O crime, conforme o MPE, foi cometido “com emprego de meio cruel, causando maior sofrimento ao ofendido com uma brutalidade exacerbada”.

O órgão afirmou que o acusado utilizou recurso que dificultou a defesa da vítima, que foi atingida pelas costas e, quando já estava caída ao solo sem poder oferecer resistência, foi golpeada várias outras vezes”.

“Aproveitando-se que ela se encontrava ferida e caída no solo, sem que pudesse oferecer resistência, foi golpeada várias outras vezes com a faca. Ao constatar que Benedito ainda estava vivo, Rafael de Oliveira desferiu-lhe mais um golpe fazendo uso de outra arma branca (machado), revelando uma brutalidade fora do comum e em contraste com o mais elementar sentimento de piedade”, apontou o MPE, em trecho da denúncia.

Agressão contra jornalista

Outro episódio de agressão envolvendo apoiadores de Lula e Bolsonaro em Mato Grosso, ocorreu no dia 19 de setembro, quando a jornalista Claudia Sarubo participava de um ato político de campanha, na cidade de Itanhangá (525 km de Cuiabá).

Ela trabalha com o candidato a deputado estadual por Mato Grosso, Wanderley Paulo (PP). A jornalista teria deixado seu carro no estacionamento do supermercado do empresário Elizeu Oliveira – que já foi vereador no Município.

O veículo está estampado com adesivos em apoio ao PT e ao ex-presidente e candidato Lula. Segundo relato do Boletim de Ocorrência, no momento em que foi tirar seu carro do estacionamento, Claudia teria sido repreendida pelo empresário.

O homem teria dito que iria tirar o adesivo do carro e acusou Claudia de estar “manchando de vermelho” uma cidade que é bolsonarista.

A jornalista pegou o celular para registrar a confusão e alega que, neste momento, foi agredida pelo empresário.

O caso é investigado pela Polícia Civil.

Por que explicamos: O Programa Núcleos de Checagem Eleitoral, liderado pela Abraji, apura conteúdos relativos às eleições em Mato Grosso, ao processo eleitoral ou de natureza política que atinjam alto grau de viralização. Casos de violência possivelmente motivados pela polarização na disputa presidencial vêm ocorrendo em todo país e, por vezes, também podem conter traços de desinformação.

Conteúdos falsos ou enganosos que envolvem o dia a dia do cidadão causam prejuízos ao processo democrático e atrapalham a decisão do eleitor, que deve ser tomada com base em informações verdadeiras.

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