quinta-feira, 29 de outubro de 2026
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PATRIMÔNIO SUSPEITO

Consultor do TCE-MT teria usado negócio de cavalos para ocultar dinheiro

Preso preventivamente na Operação Tomada de Contas deflagrada hoje (29) pela Polícia Federal (PF), o consultor jurídico-geral do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT), Grhegory Paiva Pires Moreira Maia, utilizou o mercado de elite de equinos como engrenagem para lavar dinheiro e ocultar propina desviada dos cofres públicos. Ao todo, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou a prisão preventiva de seis investigados, incluindo o presidente da Corte, conselheiro Sérgio Ricardo de Almeida.

Apontado pelo STJ como o maior destinatário individual de recursos ilícitos da organização criminosa, Grhegory Maia recebeu um total de R$ 32.310.120,43. Desse montante, R$ 31.644.860,90 foram repassados por meio de 179 ordens bancárias avulsas pulverizadas simultaneamente em 12 contas mantidas em nove instituições financeiras diferentes. O volume de recursos gerou um salto patrimonial impressionante, elevando os saldos em suas contas de R$ 1,84 milhão em janeiro para R$ 7,61 milhões em outubro de 2025.

Para dissimular a origem dos desvios, a investigação aponta que o consultor jurídico preso recorreu à abertura de estruturas societárias. Entre elas está a empresa Maia Reining Horses Ltda., constituída em 22 de julho de 2025.

Segundo a Polícia Federal, a empresa era voltada à criação de cavalos de raça, comércio de embriões e sêmen de equinos, a atividade contudo opera em um setor sem preços de referência pública padronizada. Segundo os investigadores, esse tipo de mercado é comumente utilizado por organizações criminosas para a ocultação de bens de alto valor e conversão do dinheiro público em patrimônio de difícil rastreio.

Além da empresa equina, o relatório do STJ aponta que Grhegory Maia constituiu a holding familiar G.P.P.M.M. Participações e Empreendimentos Ltda., administrada por sua sogra e, anteriormente, pela esposa de outro investigado da cúpula, Gustavo Fernandes da Silva, que recebia aportes diretos dos recursos retirados ilegalmente do TCE-MT.

Prisões preventivas determinadas pelo STJ

Sérgio Ricardo de Almeida (Presidente do TCE-MT)

Grhegory Paiva Pires Moreira Maia (Consultor Jurídico-Geral)

Gustavo Fernandes da Silva (Assistente jurídico comissionado)

Felipe José Glinke (Assessor jurídico da Presidência)

Roseli Loss (Chefe de gabinete da Presidência)

Adriangelo Barros Antunes (Secretário executivo de comissão permanente)

Alvos de medidas cautelares e afastamentos

Além da cúpula presa, o STJ determinou a suspensão de funções, proibição de contato com servidores e vedação de acesso às dependências e sistemas do tribunal.

Guilherme Antônio Maluf (Conselheiro e Corregedor-Geral)

José Carlos Novelli (Conselheiro)

Alisson Carvalho de Alencar (Conselheiro)

Valter Albano da Silva (Conselheiro aposentado)

Maurício Marques Júnior (Secretário executivo de orçamento, finanças e contabilidade)

Edson Luiz Ribeiro de Oliveira (Técnico de controle público externo e coordenador)

Carlos Alexandre Pereira (Auditor público externo e secretário de controle interno)

Eneias Viegas da Silva (Técnico de controle público externo e secretário de gestão de pessoas)

Adjair Roque de Arruda (Fiscal de tributos da Sefaz cedido como secretário executivo)

Carlos Felipe de Oliveira Almeida (Assistente técnico-financeiro)

Olavo Lage Filho (Secretário de tecnologia da informação)

Jocimauro Bento do Carmo (Técnico de controle público externo)

Carlos Romeu Rodrigues Medeiros (Consultor técnico-jurídico)

Vitor Turri Romano (Chefe de gabinete de comissão permanente)

Márcio Antônio Silvério (Assessor técnico-jurídico)

Entenda a denúncia

Segundo a denúncia acolhida pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), o esquema no TCE-MT funcionava em duas frentes principais de desvio de recursos públicos. A primeira engrenagem utilizava portarias para simular uma crise orçamentária e suspender contratos da Corte de Contas. Contudo, a alegada falta de verbas é desmentida pelos dados financeiros oficiais.

O orçamento do TCE-MT cresceu de R$ 763,8 milhões em 2023 para R$ 786,7 milhões em 2024 e R$ 826,3 milhões em 2025, os pagamentos mensais do órgão subiram de R$ 67 milhões para R$ 80 milhões durante o período de suposta restrição. Na prática, a suspensão servia para pressionar empresas, de modo que fornecedores seletos tiveram aumentos expressivos nos recebimentos após o ato, mediante a exigência de “devolução” de parte dos valores ao grupo da Presidência.

A segunda frente operava por meio de uma “rachadinha”, abastecida diretamente pelos duodécimos do Tribunal (que somaram R$ 736 milhões repassados pelo Tesouro em 52 ordens bancárias) através de canais destinados a fornecedores e ordens avulsas. Enquanto o Portal da Transparência divulgava um acumulado de apenas R$ 2,22 milhões em remunerações para os sete conselheiros envolvidos, os extratos bancários reais revelaram R$ 48,46 milhões creditados a eles.

O próprio presidente Sérgio Ricardo recebeu R$ 15,44 milhões em menos de dez meses, conflitando com o valor de R$ 288,5 mil informados oficialmente, ao mesmo tempo em que o consultor Grhegory Maia embolsou R$ 32,31 milhões, o assistente Gustavo Fernandes obteve R$ 15,89 milhões, o conselheiro Guilherme Maluf recebeu R$ 10,64 milhões e o assessor Felipe Glinke acumulou R$ 9,93 milhões. Para ocultar a origem ilícita dos valores, a cúpula realizava saques massivos em dinheiro vivo no posto do Sicoob situado dentro da própria sede do TCE-MT. Apenas Sérgio Ricardo registrou 150 saques em espécie totalizando R$ 15,64 milhões (sendo R$ 15,47 milhões efetuados direto na boca do caixa), com apoio da chefe de gabinete Roseli Loss, que operou R$ 3,52 milhões em retiradas e repassou parte em mochilas a Adriangelo Antunes (que movimentou R$ 2,28 milhões).

No total, a Polícia Federal identificou R$ 75,85 milhões em movimentações suspeitas em um intervalo de apenas 294 dias em 2025, motivo pelo qual a Justiça autorizou um sequestro patrimonial que alcança R$ 145 milhões sobre os bens dos alvos.

A Polícia Federal apreendeu hoje grandes quantidades de dinheiro em espécie, vários relógios, incluindo modelos de luxo, uma frota de carros de alto padrão e uma expressiva carga de vinhos.

As imagens divulgadas pela PF mostram pilhas de cédulas de R$ 100 e R$ 50, além de notas de dólares e euros, que estavam organizadas em grandes maços.

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