A Polícia Federal aponta o presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT), Sérgio Ricardo, como líder de um suposto esquema de desvio de recursos públicos que teria contado com cinco outros servidores e funcionários da Corte para movimentar dinheiro, realizar saques e ocultar a origem dos valores. Os seis foram presos preventivamente na Operação Tomada de Contas, deflagrada nesta quinta-feira (29).
Segundo a representação da PF analisada pelo ministro Og Fernandes, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), cada investigado teria desempenhado uma função específica na estrutura, desde o comando administrativo até a articulação jurídica e financeira e o transporte de dinheiro em espécie.
A análise bancária da investigação abrangeu 294 dias, entre 1º de janeiro e 22 de outubro de 2025, e identificou R$ 75,8 milhões em movimentações consideradas suspeitas. Os valores são apontados pela polícia como indícios do esquema, mas não representam, por si só, comprovação de desvio ou culpa dos investigados.
Veja o papel atribuído a cada preso
Sérgio Ricardo de Almeida — presidente do TCE-MT
É apontado pela PF como líder do suposto esquema. Segundo a investigação, ele teria usado o poder de gestão para autorizar contratos, editar portarias, nomear pessoas para cargos estratégicos e influenciar setores responsáveis pelos pagamentos. A decisão menciona cerca de R$ 15,6 milhões em saques em espécie atribuídos a ele.
Grhegory Paiva Pires Moreira Maia — consultor jurídico-geral
É apontado como articulador jurídico e financeiro e maior destinatário individual dos recursos investigados. Conforme a decisão, teria recebido aproximadamente R$ 32,3 milhões em diferentes contas bancárias. A PF também investiga empresas ligadas a ele, incluindo uma holding familiar e uma companhia voltada à criação e comercialização de cavalos, que poderiam ter sido utilizadas para ocultar patrimônio.
Gustavo Fernandes da Silva — assistente jurídico comissionado
É descrito como operador financeiro subordinado a Grhegory. A investigação aponta que ele teria recebido cerca de R$ 15,9 milhões e participado de operações bancárias e saques. Imagens de uma agência do Sicoob instalada no próprio tribunal teriam registrado movimentações realizadas por ele após o recebimento de ordens bancárias.
Felipe José Glinke — assessor jurídico da Presidência
Também é apontado como operador financeiro. Segundo a PF, teria recebido aproximadamente R$ 9,9 milhões e participado de saques e manuseio de dinheiro. A decisão menciona imagens de operações bancárias e um episódio em que parte do dinheiro teria sido devolvida a uma funcionária da agência.
Roseli Loss — chefe de gabinete de Sérgio Ricardo
É apontada como uma das responsáveis por executar saques e movimentar contas vinculadas ao presidente do TCE-MT. A investigação atribui a ela retiradas de aproximadamente R$ 3,5 milhões, parte das quais teria sido entregue a Adriangelo Barros Antunes. Segundo a decisão, ela já operava contas relacionadas a Sérgio Ricardo antes de se tornar procuradora bancária dele.
Adriangelo Barros Antunes — secretário executivo de comissão permanente
Ex-cunhado de Sérgio Ricardo, é apontado como responsável pelo transporte e pela circulação física do dinheiro. Conforme a investigação, ele teria recebido valores sacados por Roseli e levado o numerário para as dependências do tribunal. Imagens analisadas pela PF mostrariam uma pessoa com características compatíveis com as dele entrando em uma agência com uma mochila vazia e saindo com ela aparentemente carregada. A decisão também menciona cerca de R$ 2,2 milhões recebidos por ele a partir de setembro de 2025.
Contratos foram suspensos em 2024
A investigação também analisa duas portarias que suspenderam contratos do TCE-MT em 2024. A primeira, de 5 de agosto, determinou a interrupção temporária dos contratos vigentes por 90 dias, incluindo pagamentos e outras verbas contratuais, com exceções para serviços essenciais e contratos excluídos da medida pela Presidência.
Em outubro daquele ano, outra portaria prorrogou a suspensão até 31 de dezembro.
Apesar das medidas, a PF identificou 1.624 pagamentos a 94 empresas ao longo de 2024. Segundo os dados reunidos na investigação, 55 empresas receberam recursos antes e depois da publicação da primeira portaria, enquanto 21 deixaram de receber pagamentos após a determinação.
Para os investigadores, as diferenças no tratamento dado aos fornecedores podem indicar que a suspensão foi aplicada de maneira seletiva e usada para pressionar empresas. A hipótese integra a apuração sobre possíveis exigências de devolução de parte dos valores pagos.
A prisão preventiva dos seis investigados foi autorizada pelo STJ no âmbito da Operação Tomada de Contas. As acusações ainda serão apuradas no curso do processo, e os investigados não foram condenados.
