O delegado Marcel Gomes de Oliveira afirmou, durante o julgamento de Carlos Alberto Gomes Bezerra, o Carlinhos Bezerra, nesta sexta-feira (31), que o acusado monitorava a rotina da ex-companheira, Thays Machado, havia meses e conhecia detalhadamente seus deslocamentos antes de assassiná-la junto com o namorado, William Moreno, em janeiro de 2023.
Responsável pelas investigações quando atuava na Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Marcel foi a primeira testemunha ouvida no Tribunal do Júri, realizado no Fórum de Cuiabá. Atualmente, ele atua na Procuradoria-Geral de Justiça.
Em depoimento, o delegado relatou que, durante o cumprimento de mandado de busca e apreensão na casa de Carlinhos, os investigadores encontraram um escritório com farto material que demonstrava uma perseguição sistemática contra Thays. Segundo ele, havia anotações manuscritas, registros de geolocalização, aparelhos de GPS, equipamentos de rastreamento e documentos contendo informações sobre locais frequentados pela vítima, como supermercados, pet shops, a escola da filha, clínicas médicas, curso de idiomas e visitas a familiares.
Conforme Marcel, as anotações revelavam detalhes minuciosos da rotina de Thays, incluindo horários de saída de casa, tempo de permanência em determinados locais e até momentos em que utilizava o telefone celular.
O delegado também relatou um episódio ocorrido 17 dias antes do crime. Na ocasião, Thays saiu de casa para comemorar o réveillon e percebeu que estava sendo seguida pelo ex-companheiro. Em seguida, Carlinhos passou a enviar mensagens exigindo que ela informasse onde estava, com quem conversava e determinando que atendesse chamadas de vídeo.
Para o investigador, o conjunto de provas demonstra que o duplo homicídio foi premeditado. Além do monitoramento constante da vítima, a investigação apontou que a arma utilizada no crime já estava preparada para uso.
Na madrugada dos assassinatos, familiares informaram à polícia que Thays foi seguida por Carlinhos em um Renault Kwid bege. Horas depois, segundo a investigação, ele interceptou o casal em frente ao Edifício Solar Monet, no bairro Consil, e efetuou diversos disparos. Thays foi atingida pelas costas. William tentou fugir, mas acabou baleado na parte frontal do corpo e morreu cerca de 30 metros do local.
Marcel contou ainda que Carlinhos foi localizado poucas horas depois em uma fazenda da família, em Campo Verde (133 km de Cuiabá). Durante a abordagem, entregou espontaneamente a pistola calibre .380 utilizada no crime e os celulares que estavam em sua posse. Ele foi preso em flagrante e confessou os assassinatos, mas permaneceu em silêncio sobre a motivação.
Defesa tentou novo adiamento
Antes do início dos depoimentos, a defesa de Carlinhos Bezerra voltou a pedir o adiamento do julgamento. Os advogados alegaram supostas irregularidades processuais, questionaram as condições de saúde do réu e levantaram dúvidas sobre o isolamento das testemunhas.
Os pedidos foram rejeitados pela juíza Mônica Perri, que entendeu não haver qualquer fato novo capaz de justificar a suspensão do Tribunal do Júri. A magistrada destacou que laudo médico da unidade prisional atestou que o acusado estava apto a participar da sessão e que as testemunhas permaneceram isoladas, sob acompanhamento de um oficial de Justiça, conforme determina o procedimento do júri.
O crime
Thays Machado e William Moreno foram assassinados a tiros em 18 de janeiro de 2023, em frente ao Edifício Solar Monet, no bairro Consil, em Cuiabá. Conforme as investigações, Carlinhos Bezerra não aceitava o fim do relacionamento de dois anos com Thays e passou a persegui-la antes de cometer o crime.
A Polícia Civil identificou ao menos 71 registros de localização relacionados aos locais frequentados pela vítima. Os dados eram baixados no celular do acusado e posteriormente impressos. A investigação também apontou que os programas de monitoramento teriam sido instalados durante o relacionamento. Antes do duplo homicídio, Thays já havia registrado boletim de ocorrência contra o ex-companheiro.
