Um relatório da Delegacia Especializada de Combate à Corrupção (Deccor) aponta que o vereador Chico 2000 teria utilizado recursos desviados de emendas parlamentares para custear a reforma de uma pousada localizada entre Cuiabá e Chapada dos Guimarães. A suspeita integra a Operação Gorjeta, deflagrada pela Polícia Civil para apurar um esquema de desvio de recursos públicos, nessa terça-feira (27).
De acordo com o documento, no dia 4 de abril de 2025, o Instituto Brasil Central (Ibrace) recebeu R$ 600 mil em emenda impositiva destinada à realização da 6ª Corrida do Legislativo. Cinco dias depois, em 9 de abril, o instituto recebeu mais R$ 400 mil.
A investigação identificou conversas entre o vereador e o empresário João Nery Chiroli, da Chiroli Esportes, que levantaram suspeitas após a empresa realizar um Pix de R$ 20 mil para um trabalhador responsável por serviços na pousada ligada ao parlamentar.
Para os investigadores, o pagamento indica possível propina. Em mensagens analisadas, o pedreiro trata da cotação de materiais para a reforma e afirma que precisava de R$ 20 mil para retirar os produtos. Ele questiona se o valor poderia ser pago até quarta-feira, dia 9, ao que o vereador responde que conseguiria providenciar.
Na tarde do dia 9, o trabalhador envia um áudio informando que o dinheiro havia sido creditado. O comprovante bancário analisado pela polícia mostra que o Pix de R$ 20 mil caiu na conta por volta das 16h25, feito pela empresa Sem Limites Esporte e Eventos LTDA, conhecida como Chiroli Esportes. A Deccor aponta que o pagamento foi articulado entre Chico 2000, João Chiroli e uma terceira pessoa identificada como “Binho”.
A pousada citada na investigação é a Estância Águas da Chapada, registrada em nome de uma das filhas do vereador. Segundo o relatório, Chico possui procuração que o autoriza a representá-la legalmente.
Além do vereador e do empresário, outras quatro pessoas são alvos da Operação Gorjeta: o chefe de gabinete de Chico 2000, Rubens Vuolo Júnior; Joaci Conceição Silva, assessor do vereador Mario Nadaf; Alex Jony Silva; e Magali Gayba Felismirni Chiroli. Chico 2000, Rubens Vuolo e Joaci foram afastados de suas funções por decisão judicial.
A presidente da Câmara Municipal de Cuiabá, vereadora Paula Calil (PL), afirmou que o Legislativo não é alvo da operação e que a Casa apenas cumpre determinações judiciais. Segundo ela, a Câmara segue colaborando com as autoridades “com serenidade, transparência e respeito às decisões judiciais”.
Esquema de desvio
Segundo a Polícia Civil, o grupo teria se associado para direcionar emendas parlamentares a um instituto e a empresas específicas, com parte dos valores sendo posteriormente “devolvida” ao vereador responsável pela destinação do recurso.
A Justiça determinou o afastamento de um vereador e a suspensão do exercício da função pública de dois servidores da Câmara. Também foram impostas três medidas cautelares diversas da prisão contra seis investigados, incluindo a proibição de contato entre eles e com testemunhas, restrição de acesso à Câmara Municipal e à Secretaria de Esportes, proibição de deixar a comarca e entrega de passaportes.
Bloqueios e suspensão de atividades
A decisão judicial também proíbe o Executivo e o Legislativo de Cuiabá de contratar ou nomear qualquer um dos investigados. Foi determinado o bloqueio inicial de R$ 676.042,32 em contas de nove pessoas físicas e jurídicas, além do sequestro de sete veículos, uma motocicleta, uma embarcação, um reboque e quatro imóveis.
Também foi ordenada a suspensão das atividades do instituto investigado e a realização de auditorias pela Controladoria-Geral do Município em todos os termos de parceria firmados com a Prefeitura. O Município fica ainda proibido de realizar contratações ou pagamentos às duas empresas investigadas.

